Orlando Eller: O estuário tinha dono

12 de abril de 2014
O jornalista Rubens Pontes, Diretor de Conteúdo do Portal DOPC, encaminhou o texto do nosso amigo e colaborador Orlando Eller com a seguinte anotação:

- "Em janeiro, após a enchente, tentou-se publicar o artigo abaixo. Nâo se conseguiu.

Ele ficou meio esquecido.

Mando agora, por oportuno, pois o tema não se superou, para publicação no Portal DOPC.

Se valer, ajuda o povo, a que fazem o tempo todo de idiota de berço.
Rubens Pontes."

O texto de Orlando Eller:

Sem qualquer maldade, eu lhe pergunto, senhor rês da saga:

- Pode alguém, sendo ou não canela-verde, usufruir de decência achando-se dono inarredável do estuário de um rio, breve que seja o seu curso?

Ou, indo além: reflita e, em nome da dignidade, dê-me a resposta: quem, dentre a espécie suicida, teria suficiente autoridade para conferir a qualquer outro dos mortais direito à propriedade de ou sobre qualquer extensão territorial que pertença às águas, porque delas é, e porque dela precisam para passar livres e se espraiar para escoar-se na imensidão do mar?

Antes que lhe conte a história, saiba conterrâneo que não existe qualquer relação comum, que seja do bem, entre o que você deseja, dignidade de viver mesmo que em humildade, e o que o seu gestor propõe e faz, na maioria das vezes coisa de interesse escuso, sem amor e sem decência.

Não é isso exatamente que vem ocorrendo há anos, habitualmente, na relação entre o desejo dos cidadãos e a conveniência dos que mandam no pedaço? Os amos, eu diria.

Claro, não há contraditório para a tese de que somos rebanho de que se tira e se bebe o leite, de que se arranca o couro para dele fazer caros calçados, cintas ou bolsas, e de que se lambuza com a carne, seja em churrasco, almôndega, filé e ensopado, pratos a que se enriquece à moda cotidiana.

Voltemos ao estuário sem, é claro, ameaçar qualquer um de muitos que mereceriam ser alvo de um levante civil.

Mesmo porque não deve interessar aos cientes civilizados senhores dos privilégios qualquer reação contra o que poderíamos denominar terrorismo social.

Claro que há um fundo de poço, o qual o rebanho inteiro aguarda como sinal de recuperação da esperança para ganhar dignidade.

O estuário? Ah, denomina-se Pontal das Garças, lugar de mil e tantos lotes tantas vezes submerso ao longo dos anos recentes. É dolorosa a indignação em saber como pode alguém, no limiar de um século tido tecnológico, ser ou dizer-se dono de um estuário.

O do Jucu, o pobre rio que, por imenso dique, foi encurralado e forçado a escorrer por estreito vão entre o Sul e o Norte da Vila já tantas vezes estuprada por gestores do mal.

O estuário do Jucu era um imenso campo ambiental de flora e fauna especiais, próprias dele, colchão de matéria orgânica sobre o qual hoje flutuam casas e casebres que formam o Pontal das Garças.

Eram tantas as garças, tão raras hoje, que no final das tardes migravam entre sítios desconhecidos. Mas migravam, asas arfadas no ar, abaixo tendo como imagem o estuário aterrado.

O crime ambiental (que crime?) foi perpetrado no finalzinho dos anos mil e novecentos. Alguém, provando ser dono (poderia ou ainda pode alguém ser dono de um estuário fluvial?), com aval da gestão da Vila, obteve autorização para aterrar o imenso colchão de matéria orgânica sem fundo e dele fazer loteamento de mil e tantos lotes.

Fauna e flora típicas, inigualáveis em variedade e riqueza, foram soterradas livremente.
Não houve Iema, Seama, Crea ou poder similar que interviesse.

Postes e luz instalados, canos da Cesan sob o barro vermelho de somente cinquenta centímetros, venderam-se às pressas tudo o que por força da demanda foi possível, sem pressão de invasão por fomento público comum na Vila de então.

Quem comprou e construiu tudo perdeu. Um homem do Crea passava aplicando multas aos pobres que queriam casa.
Prefeitos seguintes se esforçaram para amenizar a tragédia e o governo do Estado fez um silêncio sepulcral, próprio de quem assume culpa pela agressão ao ambiente natural e à sociedade.

Agora, quem paga o pato é o Rodney Miranda. Quem sabe ele ficará em silêncio. Porque deve custar menos sofrer um pouco agora do que ser mortificado para sempre.

Pelos velhos pulhas da política barata.

Orlando Eller.
Jornalista

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