Reflexão: em 2020

29 de outubro de 2013
O jornal A GAZETA, comemorando seus 85 anos, trouxe o sociólogo Domenico De Masi (foto) ao seminário internacional “Tendências para o Futuro” dia 9 de outubro, no Centro de Convenções de Vitória. De que modo tecnologia, economia, trabalho, ética, cultura afetarão o futuro?

O jornalista Orlando Eller expõe em pontos o que ouviu do sociólogo De Masi.

Seguem alguns pontos destacados da palestra proferida pelo sociólogo Domenico De Masi, que merecem reflexões.

1. LONGEVIDADE
Em 2020 a população mundial será de um bilhão (de bocas, mas também de cérebros) a mais do que hoje.

Chegaremos a viver até 730.000 horas, em relação às atuais 700.000. As pessoas mais longevas serão aquelas escolarizadas e com relações sociais mais intensas. Existirá 1 bilhão de obesos.

A maioria das pessoas envelhecerão somente nos últimos dois anos de vida, durante os quais as despesas farmacêuticas serão equivalentes a todo dinheiro gasto em medicamentos durante a vida.

2. TECNOLOGIA

Em 2020, um chip terá tamanho de um neurônio humano, custará menos de vinte dólares e sua potência será superior a um bilhão de transístores.

O século XXI será marcado pela engenharia genética, com a qual venceremos muitas doenças, bem como a nanotecnologia que expressará a relação dos objetos entre eles mesmos e nós. Graças à informática afetiva, os robots serão dotados de empatia.

Poderemos levar no bolso todas as músicas, filmes, livros, toda a arte e toda a cultura do mundo.

Como transferir este patrimônio do bolso para o cérebro?

3. ECONOMIA

Em 2020 o PIB per capita no mundo será de 15.000 dólares, contra os atuais 8.000, mas o Ocidente irá dispor de 15% a menos do próprio poder de compra.

O primeiro Mundo vai conservar a supremacia na produção de idéias. Os Países emergentes produzirão sobretudo bens materiais. O terceiro Mundo fornecerá matérias-primas e mão-de-obra barata.

O PIB da China será como o dos EUA, possuirá os maiores bancos do mundo e 15 megalópolis com mais de 25 milhões de habitantes.

Paralelamente ao Bric (Brasil, Rússia, Índia, China), emergirão os Civets (Colômbia, Indonésia, Vietnã, Egito, Turquia e África do Sul).

4. TRABALHO

Em 2020 o trabalho manual e intelectual (com caráter executivo) será efetuado pelas máquinas, transferido nos países emergentes e aos imigrantes.

Os criativos (30%) serão a parte central do mercado, com mais garantias e melhor retribuição.

Os funcionários executivos (40%) trabalharão com menos garantias por um máximo de 60.000 horas no arco da vida.

Todos os restantes, chamados Neet (30%) terão direito ao consumo e não terão direito à produção.

Redistribuir a riqueza, o trabalho, o saber, o poder, as oportunidades, e as tutelas provocarão crescentes conflitos.

5. UBIQUIDADE E PLASMABILIDADE

Em 2020 a “nuvem informática” terá transformado o mundo inteiro numa única praça: tele-aprenderemos, tele-trabalharemos, tele-amaremos e nos tele-divertiremos. Correremos por isso o risco de tornar-nos obesos, devido à falta de movimento, e muito abstratos pela falta de contato real/material com os nossos semelhantes.

O conceito de privacidade sofrerá uma transformação radical, tenderá a desaparecer. Será cada vez mais difícil esquecer-se, perder-se, entediar-se, isolar-se.

Graças à farmacologia, todos poderão inibir os próprios sentimentos, exacerbá-los, simula-los. Combiná-los da forma que desejarem.

6. LAZER

Em 2020 um jovem de 20 anos terá a sua frente 555.000 horas de vida. Para os funcionários com tarefas executivas, o trabalho ocupará menos de um décimo de suas vidas. 230.000 horas serão dedicadas à cura do corpo (sono, cuidado com o corpo, etc.).

Iremos dispor de 265.000 horas de tempo livre. Como ocupá-las?

Será necessária uma verdadeira formação para o tempo livre, começando desde já, mais do que estamos habituados a nos preparar para o “tempo de trabalho”.

7. ANDROGENIA

Em 2020 as mulheres viverão 3 anos a mais do que os homens. 60% dos estudantes universitários, dos pós-graduados e dos mestrados serão mulheres. Muitas terão um filho sem ter um marido, enquanto para os homens ainda não será possível ter um filho sem ter uma mulher.

Por essa razão, as mulheres estarão no centro do sistema social e irão gerenciar o poder com dureza acumulada em dez mil anos de injustiças.

Os valores “femininos” (estética, subjetividade, emotividade, flexibilidade) serão dominados também pelos homens. No estilo de vida irá prevalecer a androgenia.

8. ÉTICA

Em 2020 o mundo será mais rico, mas continuará desigual. Uma vaca que produz leite, hoje na Europa recebe um subsídio de 913 dólares enquanto um habitante da África sub-saariana recebe 8 dólares. A visibilidade das desigualdades alimentará movimento e conflitos.

Por outro lado 70% dos trabalhadores estarão no setor terciário onde a vantagem competitiva depende da confiabilidade e da qualidade do trabalho.

Portanto a sociedade pós-industrial será mais honesta e menos violenta do que aquela industrial. Se quisermos ter sucesso teremos que nos comportar como cavalheiros.

9. ESTÉTICA

Em 2020 os fiéis se voltarão à fé, os leigos à estética, a qual, mais do que qualquer outra disciplina, é responsável pela felicidade humana.

As tecnologias serão exatas mais do que o necessário.

Por esta razão, a qualidade formal dos objetos será mais interessante que a perfeição técnica já adquirida.

A estética se tornará um dos principais fatores competitivos e quem se dedicará às atividades estéticas será mais gratificado de quem trabalhará com atividades práticas.

10. CULTURA

Em 2020 a homologação global irá superar a identidade local. Contudo todos tenderão a diversificar-se uns dos outros. A cultura digital irá suplantar aquela analógica.

Energia e ecologia serão problemas primários.

O modelo americano (“Washington consensus”) será insidiado pelo modelo chinês (“Beijing consensus”).

A instrução será considerada como formação permanente e ocupará pelo menos 100.000 horas de vida. A maior produção e transmissão do saber será através do critério de “muitos para muitos” (Wikipédia, Facebook, etc.).

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