Orlando Eller: 1964

15 de abril de 2014
Eu mal tinha completado 19 anos. Era só um jovem da roça tangido pelo êxodo provocado pela erradicação dos cafezais.

Minhas cinco irmãs saíram após mim, fugindo do mundo dos caipiras para agregar-se ao mundo novo, feito de gente que tinha acesso à informação, à educação e à cultura. Na roça nada havia, a não ser silêncio, simplicidade, lombriga, falta de tudo.

Menos de fé.

Em 1964, em seminário luterano em São Paulo, eu estudava português, latim, geografia, matemática, inglês, entre outras coisas de um mundo em que não havia banho em bica no final da tarde.

Nem era igual ao colchão em palha de milho (foto) em que dormir.

Lá havia notas em tudo, até em disciplina e ordem. E faziam parte do cálculo de aprovação, que era de, no mínimo, 7. Era um mundo bom, de imensas e agradáveis descobertas.

Não me interessava o ontem.
Eu tinha saudade do amanhã.
Mais, mais, mais, quanto possível.

Como elas. A irmã Nilza, já ida, passou os últimos anos como professora universitária em São Paulo. E dava consultoria em qualidade em educação.

Ela nunca se queixou de ter pertencido á minoria pomerana, de muita pobreza, que jamais reduziu ideal algum. Nem saiu às ruas para protestar. Ela só tinha um caminho, o da escola.

Pois bem, não havia tanta escola por quilômetro quadrado. Não havia assistência à saúde (a gente tomava o tiro-seguro para matar as bichas brancas que davam anemia, cagávamos no mato e não sabíamos que a Terra é redonda).

Pra não me alongar, crescido e educado assim, não me é possível entender a atualidade. Quanto mais há, mais se cobra e menos se dá. E passamos a viver num mundo de coitadinhos, minorias, negros, homossexuais, índios, sem-terra, sem-verme, sem tudo a quem sempre se dará o direito de cobrar do Estado, de alguém, dos outros, jamais de si mesmo.

Enfim, quem muito cobra pouco dá. Mesmo assim, se se é boi de rebanho, que se use o chifre pra furar e a pata pra dar coice. Fure-se a cerca, mas exija-se de si até extenuar-se para dormir em pasto farto.

Ah, não houve mudança significativa no nosso mundo que tenha dispensado um general e suas tropas. E assim há de ser, quem sabe aqui, quem sabe ali.
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